Todo 3 de junho, o universo do vinho volta seus olhos para um profissional que raramente ocupa o centro das atenções, mas cuja influência atravessa vinícolas, restaurantes, hotéis, bares e até grandes coleções históricas: o sommelier. A data não surgiu por acaso nem foi criada por uma campanha promocional. Ela remete à fundação, em 1969, da Association de la Sommellerie Internationale (ASI), em Reims, na França, organização que ajudou a estabelecer padrões globais para uma profissão que hoje desempenha um papel fundamental na cultura gastronômica e enológica.
A criação da ASI marcou um ponto de virada. À medida que a gastronomia se profissionalizava e o mercado de vinhos se expandia internacionalmente, tornou-se evidente a necessidade de critérios comuns para formação, avaliação técnica e intercâmbio de conhecimento. A entidade passou a conectar associações nacionais, organizar competições, promover programas de capacitação e incentivar uma linguagem compartilhada entre profissionais de diferentes países.
Mais de meio século depois, o Dia Internacional do Sommelier permanece ligado a esse momento de institucionalização. Ao mesmo tempo em que homenageia quem trabalha diariamente com serviço e consultoria de bebidas, a data também chama atenção para uma atividade que exige atualização constante em um mercado cada vez mais complexo, marcado por novos rótulos, regiões emergentes, mudanças de consumo e avanços tecnológicos na produção.
Embora hoje o sommelier seja associado principalmente ao vinho, seu campo de atuação é mais amplo. Dependendo do ambiente profissional, ele pode atuar também com destilados, licores, cafés, chás e outras bebidas. Seu trabalho combina conhecimento técnico, análise sensorial e uma habilidade muitas vezes subestimada: traduzir informações complexas sobre terroir, métodos de produção e estilos de vinificação em recomendações claras e úteis para o consumidor.
As origens dessa profissão, porém, são muito mais antigas do que a celebração criada no século XX. Registros históricos apontam que o termo surgiu na França medieval, inicialmente relacionado ao transporte e à administração de provisões destinadas à nobreza. Com o passar dos séculos, a função evoluiu e ganhou responsabilidades cada vez mais ligadas ao controle e à segurança das bebidas consumidas pelas elites.
Algumas reconstruções históricas situam em 1318 uma importante transformação desse papel dentro das cortes reais e aristocráticas. Na época, o responsável pelos vinhos tinha a tarefa de verificar previamente as bebidas antes de serem servidas, uma medida destinada a reduzir riscos de envenenamento. Muito antes de sugerir harmonizações sofisticadas ou selecionar safras raras, o antecessor do sommelier moderno já carregava uma responsabilidade considerável.
Hoje, o cenário é outro, mas a dimensão técnica continua presente. Além de orientar harmonizações entre pratos e bebidas, o sommelier administra adegas, controla estoques, supervisiona condições de armazenamento, organiza degustações, participa de compras e define a composição das cartas de vinho. Em estabelecimentos com grande fluxo de clientes, seu trabalho envolve também compreender preferências individuais e transformar conhecimento especializado em experiências acessíveis.
Essa capacidade de conectar história, cultura e consumo ajuda a explicar por que o vinho continua ocupando um espaço singular em tantas sociedades. E poucos lugares ilustram melhor essa relação entre memória e patrimônio do que a Geórgia, frequentemente apontada como um dos berços da viticultura mundial.
Em Tbilisi, a histórica Fábrica Nº 1 guarda um acervo que parece ter saído de um romance. Nas profundezas de suas câmaras repousam milhares de garrafas que permaneceram longe da luz por décadas — em alguns casos, por quase dois séculos. Entre elas estão exemplares associados à aristocracia russa, coleções que passaram pelas mãos dos czares Alexandre III e Nicolau II e que, após a Revolução Russa de 1917, acabaram incorporadas ao patrimônio controlado pelo regime soviético de Josef Stalin.
Segundo as autoridades georgianas, a adega abriga cerca de 20 mil garrafas de coleção, incluindo vinhos georgianos e estrangeiros de alto valor histórico. Muitas delas envelheceram durante mais de duzentos anos. O governo transferiu a gestão permanente do complexo para a Agência Nacional do Vinho, que agora conduz um amplo trabalho de catalogação para identificar a procedência e a importância de cada exemplar.
Parte desse patrimônio deverá ser leiloada nos próximos anos. A arrecadação será destinada à construção de uma escola especializada em vinho, projeto que pretende fortalecer a formação de novas gerações de profissionais e preservar a tradição vitivinícola do país.
O acervo não reúne apenas rótulos georgianos. Entre as preciosidades estão vinhos franceses provenientes de prestigiados châteaux que integraram as coleções pessoais da família imperial russa durante o século XIX. Essas garrafas atravessaram revoluções, guerras, mudanças de regime e transformações geopolíticas profundas até chegarem aos dias atuais.
Durante a reabertura oficial da Fábrica Nº 1, o ministro da Agricultura da Geórgia, David Songulashvili, destacou que o local abriga vinhos e destilados envelhecidos ao longo de mais de dois séculos e reforça a posição histórica do país no mapa mundial do vinho. Segundo ele, a tradição vitivinícola georgiana não apenas moldou a identidade nacional, mas também desempenhou papel relevante nas relações comerciais e culturais da região ao longo dos séculos.
Além do valor enológico, o complexo representa um importante patrimônio arquitetônico do século XIX. O edifício foi financiado pelo empresário e filantropo David Sarajishvili, figura decisiva para o desenvolvimento da indústria de conhaque no antigo Império Russo e fundador de empreendimentos que se tornaram referências no setor.
Entre adegas centenárias, coleções imperiais e profissionais que transformam conhecimento em experiência, o vinho continua demonstrando sua capacidade de conectar épocas muito diferentes. O trabalho dos sommeliers e a preservação de acervos históricos como o de Tbilisi mostram que cada garrafa carrega algo além da bebida em si: ela também transporta histórias, tradições e fragmentos de memória que atravessam gerações.