Quem acompanha os bastidores das gigantes do streaming já sacou que a estratégia de engajamento dessas plataformas adora brincar com os extremos. Se de um lado o público é fisgado por produções densas, maquiagens elaboradas e universos fantásticos, do outro, o foco recai sobre o carisma absurdo de elencos estrelados lidando com os dramas da vida real.
Um exemplo perfeito desse primeiro cenário rolou quando a Netflix soltou nas suas redes brasileiras aquele vídeo dissecando a transformação macabra de Jamie Campbell Bower no vilão Vecna, em Stranger Things. O mais louco dessa história toda não é nem o trabalho exaustivo com as próteses espalhadas pelo corpo do ator, mas sim a autonomia criativa que ele teve no processo. Logo após a estreia da temporada, Bower comentou em algumas entrevistas que os produtores meio que o deixaram no escuro sobre o personagem. Em vez de travar, ele usou a própria imaginação para preencher as lacunas.
A ousadia acabou rendendo frutos impressionantes. Os Irmãos Duffer, criadores da série, piraram na visão do ator logo de cara. Como o próprio Jamie revelou à Entertainment Weekly, ele chegou na primeira reunião presencial com um fichário debaixo do braço, cheio de anotações sobre a essência do monstro. A resposta dos roteiristas foi na lata: “Bicho, você por acaso leu o nosso roteiro? Isso tá simplesmente perfeito”. O Vecna que aterrorizou a galera não nasceu do nada. O ator mergulhou em referências pesadas do cinema, trazendo uma pegada de As Duas Faces de um Crime, uma boa dose de Hellraiser e um tempero sutil de Freddy Krueger. Ele só tomou o cuidado de não deixar a atuação “Krueger” demais, argumentando que a encarnação clássica de Robert Englund era o puro caos, enquanto o seu Vecna carrega um rancor gelado, uma raiva que foi meticulosamente acumulada ao longo dos anos.
Claro que a internet não ia deixar o talento de Bower passar batido, e ele acabou viralizando assim que sua verdadeira identidade na trama foi revelada. Rapidamente, o tribunal do Twitter fez sua mágica: os fãs mais novos começaram a apontar que ele era o vampiro Caius Volturi da saga Crepúsculo ou a versão jovem de Gellert Grindelwald na franquia Harry Potter e Animais Fantásticos. Já a turma com um pouco mais de bagagem cinematográfica fez questão de lembrar das suas atuações como Rocker em RocknRolla e o Rei Arthur na série Camelot. (Vale lembrar que, na época, essa quarta temporada de Stranger Things foi fatiada estrategicamente em duas partes, com o desfecho cravado para julho de 2022).
Se por um lado a plataforma surfa na onda da nostalgia e do terror sobrenatural, por outro, ela sabe exatamente como abraçar os dilemas e as risadas do público adulto. É aí que a chave vira para o anúncio recente que animou os fãs de comédia: a renovação de The Four Seasons para a sua terceira temporada.
Segurando a mesma dinâmica consagrada dos anos anteriores, a nova leva vai entregar oito episódios, inteligentemente divididos em quatro arcos de dois capítulos (primavera, verão, outono e inverno), sempre acompanhando as viagens e reencontros daquele grupo de amigos de longa data. O elenco principal da segunda temporada segue firme: Tina Fey, Will Forte, Kerri Kenney-Silver, Marco Calvani, Erika Henningsen e Colman Domingo já estão confirmados. A situação agora é bem diferente da transição da primeira para a segunda temporada, quando a galera teve que lidar com a saída do Steve Carell após a morte pesada do Nick (embora ele ainda tenha dado as caras num flashback). Outra novidade boa é o retorno de Henningsen como figura regular; na temporada passada, a personagem dela, Ginny, deu um verdadeiro chá de sumiço nos três episódios finais porque resolveu tentar a vida longe do grupo para criar o filho do Nick.
Mas o que está deixando os fãs em polvorosa mesmo é o gancho deixado no último episódio. Num cameo que pegou todo mundo de surpresa, David Tennant apareceu como Gianpiero, um vizinho na Itália que já desponta como um baita interesse amoroso para Anne, a viúva do Nick. Tracey Wigfield, uma das mentes por trás da série, já andou jogando no ar em entrevistas que teremos “mais histórias” envolvendo o personagem, embora as fofocas de bastidores apontem que o nível de envolvimento do astro de Doctor Who ainda é incerto, já que os contratos não foram totalmente amarrados.
A recepção dessa comédia, que bebe da fonte do filme homônimo do Alan Alda de 1981, é uma montanha-russa interessante de analisar. A estreia lá em maio de 2025 foi um estrondo absoluto: 24,4 milhões de visualizações nas duas primeiras semanas, cravando o topo do ranking global em inglês da Netflix. O lançamento da segunda temporada amargou uma queda inicial de 63%, batendo 4,4 milhões de views de cara e ficando em terceiro lugar, mas depois deu uma boa respirada, subindo para 5,7 milhões e até puxando a primeira temporada de volta para o Top 10. Apesar dessa oscilação nos números puros, a crítica abraçou a série de vez — no Rotten Tomatoes, a aprovação saltou de 78% no ano um para robustos 90% no segundo ano.
Como as próprias criadoras e showrunners, Tina Fey, Lang Fisher e Wigfield, soltaram no comunicado de comemoração: “Estamos emocionadas de poder dar vida a essa terceira temporada. Obrigado a todos que assistiram. Gente de meia-idade, vambora!”. É a prova viva de que a química de um elenco bem escalado sustenta qualquer projeto. A vice-presidente de comédia da Netflix, Tracey Pakosta, resumiu bem a ópera ao dizer que a jornada caótica e linda desses amigos funciona porque as criadoras têm o dom mágico de misturar coração com um humor super ácido, fazendo o espectador se sentir parte daquela panelinha. E pelo visto, essas férias caóticas ainda vão render muito pano pra manga.