Nos vastos universos dos quadrinhos e das adaptações para o cinema, é muito fácil a gente se perder. Pega o Besouro Azul, por exemplo. Recentemente, com o personagem em evidência, muita gente começou a se perguntar: afinal, esse herói é da Marvel ou da DC? A resposta exige escavar um pouco o passado, porque o cara tem uma bagagem histórica considerável e uma trajetória que espelha bem as bizarrices da indústria de HQs.
O Besouro Azul original deu as caras lá na década de 1930, sendo um dos primeiros super-heróis a pipocar nas bancas. Criado pela Fox Comics, ele atendia pelo nome de Dan Garret e estreou na Mystery Men Comics #1 em 1939, um aninho só depois do Superman. O sujeito era um policial que vestia um manto azul, usava umas asas mecânicas e saía no soco contra a injustiça. E detalhe: nessa época, os poderes dele vinham de uma espécie de vitamina esquisita.
O tempo passou e, em 1954, a Charlton Comics comprou os direitos do personagem. Deram uma repaginada total e passaram o manto para o brilhante cientista Ted Kord. A mudança principal foi na origem das habilidades. A tal vitamina rodou e entrou em cena um escaravelho azul místico que dava superpoderes ao portador. O herói ganhou uma certa tração aí, mas o estrelato mesmo só veio quando ele caiu nas mãos da DC Comics, lá nos anos 60.
A Consagração na DC e as Múltiplas Roupagens
A DC pegou essa salada mista da Fox e da Charlton e arrumou a casa. Ted Kord se consolidou como o inventor afiado, que acabou herdando o legado justamente do seu mentor, o antigo Besouro, Dan Garret. Nessa fase, Kord não tinha superpoderes de verdade, mas se garantia no intelecto e na porrada. O auge do personagem rolou com a entrada dele na Liga da Justiça. Ele levou sua malícia tecnológica para a equipe, dividindo a mesa com gigantes como Superman, Batman e Mulher-Maravilha. Isso sem falar da dupla icônica que formou com o Gladiador Dourado, garantindo um alívio cômico excelente que jogou a popularidade da dupla lá no alto.
Anos mais tarde, em 2006, a editora deu um giro de 180 graus e introduziu Jaime Reyes, um adolescente latino que trombou com um escaravelho alienígena. O artefato grudou nele e formou uma armadura pesadíssima, trazendo uma pegada muito mais fresca e representativa que a crítica abraçou na hora.
Para resumir a ópera: mesmo com várias encarnações e tendo nascido fora da editora, o Besouro Azul nunca foi da Marvel. A confusão rola solta porque o herói nunca foi aquele protagonista de primeiro escalão, e como tanto a DC quanto a Marvel têm catálogos infinitos de personagens que vivem se esbarrando tematicamente, o leitor casual fica meio tonto. E é exatamente essa imensidão de catálogos e personagens que nos leva ao verdadeiro vilão das HQs, algo que assombra a indústria na hora de atrair sangue novo.
O Verdadeiro Vilão Fica nos Bastidores
Você assiste a um filme de herói, bate aquela nostalgia absurda da infância e dá vontade de ler quadrinhos de novo. Imagine que você viu um filme do Homem-Aranha. Você não quer colecionar revistas mensais nem entender trinta anos de cronologia, só quer uma história fechada e boa do cabeça de teia. Alguém te recomenda Homem-Aranha: Azul, do Jeph Loeb e do Tim Sale. Arte linda, roteiro focado no início da carreira do Peter. Parece perfeito.
Aí você vai numa livraria e não acha. Bate na loja de quadrinhos do bairro, nada. Olha na Amazon e só acha vendedor terceirizado cobrando uma fortuna por cópia usada. O balconista da loja ainda te fala que essa equipe criativa tem outras obras na mesma pegada — Hulk: Cinza, Demolidor: Amarelo e Capitão América: Branco. Ironicamente, nenhuma delas está em estoque e não há previsão de reimpressão. Você volta para casa frustrado. A loja perde a venda e o mercado perde um leitor em potencial, tudo porque um material aclamado não está nas gráficas.
Lojas e livrarias dependem de uma coisa óbvia: as editoras precisam ter os livros para que eles sejam vendidos. Manter o catálogo de fundo rodando — o chamado backlist — é o verdadeiro ganha-pão dessas empresas, chegando a representar 80% ou mais das vendas. Só que ter o número certo de livros disponíveis na hora certa é um malabarismo brutal.
A Matemática Ingrata e o Pão-Durismo
A gestão desse estoque envolve analisar tendências de vendas ao longo de anos e definir tiragens. Mas a conta complica com os eventos externos. Vai sair um filme novo ou série de TV? Quando o trailer de Watchmen estourou, as vendas do encadernado foram para a estratosfera. O mesmo vale para séries recentes como Invincible e The Boys. A procura explode na primeira temporada, mas vai perdendo fôlego nas seguintes.
Para piorar a logística, imprimir uma graphic novel colorida sai muito mais barato fora do país, geralmente na Ásia. Se fosse um livro só de texto, uma gráfica local nos Estados Unidos resolveria o problema em dias. Mas imprimir do outro lado do mundo significa meses de espera. O material viaja de navio, amarga na burocracia da alfândega, é descarregado no porto e só depois pega a estrada até o armazém.
Nessa corrida de obstáculos, a forma como algumas gigantes operam beira o descaso. Durante anos, compradores de grandes redes reclamavam amargamente da Marvel. A pegada deles era tratar encadernados e graphic novels como se fossem revistas de banca: o estoque acabava e a editora simplesmente não mandava reimprimir. O título sumia por meses ou anos. Quando finalmente resolviam lançar de novo, vinha uma edição completamente diferente, com um novo número de ISBN.
Para quem trabalha com vendas online ou física, mudar o ISBN de uma obra clássica é uma dor de cabeça sem tamanho, porque destrói o histórico de vendas e cria listagens duplicadas. O motivo por trás disso? Falam que a culpa era de Isaac Perlmutter, um executivo da Marvel conhecido por ser pão-duro ao extremo. Ele detestava a ideia de amarrar capital da empresa deixando livros parados em armazéns.
No fim das contas, a dificuldade de entender de onde veio o Besouro Azul ou de conseguir comprar uma HQ clássica do Homem-Aranha esbarra na própria engrenagem da indústria. Querem leitores novos a todo custo, mas a logística engessada e decisões movidas a economia porca muitas vezes acabam fechando a porta na cara de quem só queria ler um bom quadrinho.