A moda sempre teve um lugar um tanto desconfortável nas grandes instituições de arte do Ocidente. Era aquela eterna dor de cabeça curatorial: será que um vestido merecia mesmo dividir o teto com obras-primas da pintura e esculturas heroicas? Afinal, roupas não eram penduradas em paredes ou reverenciadas em pedestais; elas eram — e aqui cabe aquele suspiro de desdém dos puristas — simplesmente vestidas. Podiam até ser peças chave da cultura pop, mas elevá-las ao patamar de alta cultura já parecia forçar a barra.
Em cidades como Londres e Paris, a saída tradicional foi empurrar o vestuário para museus focados em artes decorativas, como o Victoria & Albert e o Musée des Arts Décoratifs. Em Nova York, a dinâmica não foi muito diferente. O Metropolitan Museum of Art até engoliu o orgulho em 1946 para aceitar roupas em seu acervo, mas fez questão de enfiar o recém-criado departamento de moda direto no porão. Pensa numa metáfora escancarada para a hierarquia dos museus.
Mas o cenário mudou drasticamente. O Costume Institute acaba de inaugurar as galerias Condé M. Nast, um espaço permanente e imponente de mais de mil metros quadrados. Onde antes funcionava a lojinha de souvenirs do museu, logo à direita do balcão de informações no Great Hall, agora repousa o departamento de moda. Em vez de ficar escondida no subsolo, a moda é a primeira coisa que o público encara ao pisar no Met. É o som nítido de uma briga de 80 anos chegando ao fim.
O Fio Condutor da Arte e do Tempo
Essa mudança é o reconhecimento de um fato difícil de ignorar: hoje, é a moda que faz as pessoas passarem pelas portas dessas instituições seculares. É algo tátil, real. Todo mundo entende e se sente perfeitamente à vontade para dar pitaco sobre uma peça de roupa, ao contrário do que acontece diante de um quadro de de Kooning, porque, no fim das contas, todo mundo se veste. Metade das 10 exposições mais visitadas da história moderna do Met saiu do Costume Institute.
A mostra que inaugura as novas galerias, “Costume Art”, escancara essa premissa. O grande blockbuster deste ano funciona como uma espécie de guia. É como se a exposição estendesse a mão ao visitante e propusesse mostrar os tesouros escondidos por todo o prédio. A curadoria sugere que o corpo vestido é o tecido conjuntivo entre os 17 departamentos e 19 áreas de colecionismo do Met. Você percebe esse impacto logo na antessala dedicada ao que estão chamando de “naked dressing”. Lá, um vestido transparente da Dilara Findikoglu de 2023, adornado com rolos de cabelo estrategicamente posicionados — uma vibe meio Lady Godiva da vida real —, divide o espaço com um bronze veneziano do século 18, onde as mãos da escultura cobrem exatamente os mesmos pontos que o cabelo do vestido. Uma bela isca visual para capturar a atenção de quem passa.
Da Exibição à Contemplação
Essa capacidade da roupa de conectar épocas, propósitos e contar histórias ganha contornos ainda mais intimistas quando a moda deixa de ser vista apenas como acervo histórico e se transforma em uma ferramenta ativa de contemplação. Longe dos corredores imponentes de Nova York, o 20º desfile anual do departamento de Family & Consumer Sciences (FACS) da Liberty University provou como a moda opera nesse nível pessoal e espiritual.
Batizado de “Selah” — a palavra hebraica encontrada nos Salmos que significa pausar e refletir —, o evento reuniu criações de 10 ex-alunos e 17 estudantes atuais sob uma premissa muito particular. Não era sobre montar uma passarela chamativa ou buscar o puro espetáculo. Kim Cashman, professora e orientadora do evento, pontuou que a ideia era criar um respiro. O objetivo era usar o design para refletir sobre a trajetória pessoal de cada um e sobre a caminhada com o divino, mostrando que fé e moda podem se misturar de um jeito bem orgânico.
A noite abriu com uma oração liderada por Loni Mbele e Shemara Barrett, fundadoras da Not Just Sunday, um projeto que tenta injetar princípios bíblicos e vivência prática na indústria da moda. O que se viu no palco foi uma tradução literal dessa busca por significado. Vinte modelos cruzaram a passarela vestindo de tudo: de peças do dia a dia a vestidos de gala com proporções teatrais.
Grace Hawley, que levou o prêmio de Melhor Design, apresentou um vestido fluido com efeito molhado. A peça, que trazia uma cintura bordada brilhante imitando a luz do sol batendo na água, foi inspirada nas memórias da estilista crescendo no litoral do Maine, onde a quietude do oceano servia como âncora de paz. A introspecção também marcou a obra de Madeline Anderson. Sua criação — um vestido preto de armação pesada com os ombros à mostra — foi desfilada por Isobella Mary Mercedes Jameson, que enxergou na peça a materialização da paciência e da força de espera descritas no livro de Isaías.
Quando os ex-alunos assumiram os holofotes, a dinâmica se tornou ainda mais próxima. Alguns decidiram vestir as próprias criações, enquanto outros trouxeram pessoas importantes para a passarela. Leah Autry, formada em 2022, não contratou ninguém de fora: foi a sua própria mãe quem desfilou seu vestido azul de algodão, finalizado com um laço elegante nas costas. Seja em um museu centenário que finalmente aceita o peso cultural das roupas, ou em um desfile universitário onde o corte de um tecido vira prece, a moda continua provando que é muito mais do que aquilo que simplesmente vestimos. Ela é o espelho exato de quem somos e do que procuramos.