A engrenagem do entretenimento asiático gira em duas velocidades bem distintas nos dias de hoje, entregando produtos e narrativas que dominam as redes de formas quase opostas. De um lado, a Coreia do Sul continua refinando a arte de nos fisgar pelo conforto do bom e velho clichê corporativo. A bola da vez é “Sorriso Real”, cujos 16 episódios já estão marcando ponto na Netflix e provando que a fórmula “enemies to lovers” ainda tem muita lenha para queimar.
A trama foca em Goo Won (interpretado por Lee Jun-ho), o clássico estereótipo do herdeiro: ele é podre de rico, dono de um conglomerado hoteleiro de alto luxo chamado King Group, e ostenta uma cara fechada que afugenta qualquer um num raio de dez metros. Mimado e carrancudo por opção, ele comanda a vida profissional com mãos de ferro. Mas o buraco é mais embaixo. Por ter crescido em um ninho de cobras onde as aparências ditavam as regras, Goo Won criou uma aversão quase patológica a sorrisos e simpatias gratuitas. Tudo piora quando ele decide voltar ao hotel da família para caçar memórias de sua mãe, que desapareceu misteriosamente anos atrás.
É nessa busca que o destino — e um roteiro bem amarrado — joga Cheon Sa-rang (Lim Yoon-A) no caminho dele. Ela é a antítese ambulante do chefe: uma funcionária radiante que esbanja sorrisos e educação de sobra. Obviamente, Goo Won odeia a garota logo de cara. Ele chega ao ponto de ameaçar demitir qualquer um que ouse dar um sorriso na presença dele, mas Sa-rang não recua e continua o tratando com uma cordialidade inabalável, o que o deixa com os nervos à flor da pele. Essa dinâmica caótica é o motor da série. O choque de personalidades entre o mau humor do herdeiro e a luz da funcionária, ironicamente, serve como um ímã. Aos poucos, eles começam a perceber que existe muito mais por trás da fachada emburrada dele e do sorriso inquebrável dela. Para dar suporte a esse romance, a produção ainda traz nomes de peso no elenco de apoio, como Ko Won-hee, Kim Ga-eun, Kim Jae-won e Ahn Se-ha.
Se na Coreia do Sul a aposta é num romance construído nas entrelinhas e no polimento estético, na Índia o jogo de poder e o estrelato são muito mais crus e escancarados fora das telas. Enquanto os astros dos K-dramas navegam o sucesso global pelas plataformas de streaming, os deuses da indústria Telugu (a gigante Tollywood) não fazem a menor questão de pedir bênção ao mainstream de Bollywood.
Mahesh Babu é a personificação dessa autoconfiança que não abaixa a cabeça para a indústria hindi. Sendo um dos nomes mais pesados do cinema Telugu, ele tem dezenas de sucessos dublados em hindi, mas nunca topou fazer um filme originalmente focado nessa indústria. A justificativa do ator? Uma frase que entrou para a história do entretenimento indiano: “Bollywood não tem cacife para me pagar”.
A declaração rolou lá no lançamento do trailer do filme Major. Na ocasião, Mahesh mandou a real com zero filtro: confessou que até recebe muitas ofertas de Bollywood, mas acha que seria perda de tempo tentar uma transição. Para ele, o amor e o tamanho do estrelato que construiu em casa são suficientes, e ele prefere focar em expandir as fronteiras do próprio cinema Telugu em vez de mudar de CEP. Só que essa postura de intocável incomodou muita gente.
Recentemente, Rahul Dev, que trabalhou com Mahesh em 2002 na comédia de faroeste Takkari Donga, resolveu dar uma alfinetada nessa história e sugeriu que o buraco financeiro não é o único motivo. Durante um papo com o canal Hindi Rush, Rahul foi questionado sobre a famosa frase do ex-colega. Ele deu uma piscadela e entregou uma versão bem menos glamourosa: “A verdade é que ele não domina a língua (hindi)”.
Rahul aproveitou para fazer uma análise de mercado que joga uma luz interessante sobre a recusa de Babu. Ele apontou como a parceria de longa data de Mahesh com o diretor Trivikram Srinivas gerou um modelo de cinema muito particular — uma mistura de apelo comercial pesado com sensibilidade narrativa —, algo que praticamente não existe em Bollywood. Segundo Rahul, o cinema hindi opera em extremos: ou cai no submundo sombrio das mentes de Anurag Kashyap e Ram Gopal Varma, ou sobrevive de reciclar enredos de Hollywood. Ou seja, simplesmente não haveria espaço para o estilo que consagrou o astro do Sul.
Falem o que quiserem sobre o idioma ou o cachê dele, o fato é que Mahesh Babu continua ditando as regras do próprio jogo, e o próximo passo da sua carreira é colossal. Ele é a grande estrela de Varanasi, um épico cercado de expectativas e comandado por ninguém menos que o monstro SS Rajamouli (o diretor que virou o mundo do avesso com RRR). O filme vai marcar o retorno de Priyanka Chopra ao cinema indiano após um hiato de sete anos e também conta com Prithviraj Sukumaran. Com lançamento global marcado para 7 de abril de 2027, o longa será uma aventura que vai cruzar o globo, trazendo Mahesh num ambicioso papel duplo como Rudra e o próprio Lorde Rama. Um projeto com essa escala mostra exatamente o porquê de ele não estar nem um pouco preocupado em agradar aos engravatados de Mumbai.