O impacto imediato de uma compra histórica Envolvidas naquele que talvez seja o negócio de mídia mais importante do século, a Netflix e a WarnerBros estão dividindo os holofotes nas indicações ao Oscar deste ano. Essa parceria já garantiu 4 dos 10 indicados na categoria de Melhor Filme, o que ajuda a entender muita coisa sobre o que motivou a gigante do streaming a propor a compra da Warner pela impressionante cifra de US$ 82,7 bilhões. A mistura entre sucesso de bilheteria e aclamação nas premiações é exatamente o tipo de propriedade intelectual de peso que a Netflix buscava.
O filme “Pecadores”, da Warner, fez história ao arrematar 16 indicações, um recorde absoluto na premiação. A produção não só brilhou com os críticos, mas também foi a sétima maior bilheteria nos Estados Unidos em 2025. Outros sucessos distribuídos pelo estúdio, como “F1” e “Uma Batalha Após a Outra”, marcaram presença constante entre os 30 longas mais assistidos pelo público americano ao longo do ano.
Números, audiência e a reação de Wall Street No papel, a estratégia parece cristalina. Dados do segundo semestre de 2025 mostram que os assinantes da Netflix consumiram 96 bilhões de horas de conteúdo. O volume representa um aumento de 2% em relação ao ano anterior e 1% a mais se comparado ao primeiro semestre. Parte do mercado apostava que a aquisição da Warner serviria justamente para melhorar esses números brutos de engajamento, mas a direção da empresa tem uma visão bem mais detalhista do negócio.
Durante uma videochamada com investidores na última terça-feira, o co-CEO Greg Peters argumentou que o tempo total de exibição não é a melhor métrica para avaliar o engajamento real do público. Ele explicou que fatores como tipo de plano, geografia e as diferenças culturais do público pesam bastante. O executivo usou o Japão como exemplo prático. É um mercado com enorme potencial de crescimento para a marca, mas o público japonês simplesmente consome menos horas de televisão do que os americanos. Segundo Peters, focar apenas nas horas assistidas acaba distorcendo a análise por usuário. Apesar de um aumento saudável de 8% na base de clientes em 2025 e de gastos que bateram os US$ 18 bilhões em programação, os resultados não empolgaram os investidores. As projeções financeiras para 2026 foram recebidas com ceticismo, o que fez as ações da empresa derraparem 7% logo na sequência.
Uma mudança de postura sobre os cinemas Se antes a plataforma era vista como a grande inimiga das salas de cinema tradicionais, os ventos mudaram. Ted Sarandos, o outro co-CEO, praticamente encerrou os temores da cadeia exibidora a respeito da compra da Warner. Durante uma entrevista recente ao New York Times, o executivo, que por anos criticou duramente o modelo de exibição, confirmou que vai manter a janela de 45 dias de exclusividade nos cinemas que a Warner já pratica hoje.
É um formato diametralmente oposto ao que a Netflix costuma fazer com seus próprios originais. “Frankenstein”, a única aposta original da empresa para Melhor Filme, ficou em cartaz de forma limitada por apenas três semanas. Foi uma janela até generosa considerando o histórico da plataforma, mas o impacto nas bilheterias foi imperceptível. O longa de terror sequer apareceu na lista de maiores arrecadações de 2025 do Box Office Mojo. Enquanto isso, o trio da Warner formado por “Pecadores”, “F1” e “Uma Batalha Após a Outra” somou quase US$ 541 milhões no mercado doméstico. Obviamente, o foco central da Netflix continua sendo a venda de assinaturas, não a venda de ingressos. A empresa ainda defende o crescimento orgânico, mas não esconde que a biblioteca da Warner é um atalho formidável para entregar mais e melhores produções.
O alto custo de manter os próprios sucessos Enquanto a aquisição da Warner ajuda a encorpar o prestígio do catálogo, a Netflix lida com um dilema gigante dentro da própria casa. Produzir sucessos originais custa muito caro, e a adaptação em live-action de “One Piece” ilustra perfeitamente essa dor de cabeça. A série é um fenômeno real. Ela conseguiu agradar tanto a crítica quanto os fãs mais exigentes do anime, algo raríssimo nesse tipo de formato. O grande problema é a matemática.
Cada episódio custa em torno de US$ 18 milhões. Baseados nos mais de 1.080 capítulos do mangá, os produtores chegaram a comentar em 2023 que tinham esperanças de produzir umas 12 temporadas. O produtor Marty Adelstein mencionou na época que conseguiriam entregar seis temporadas facilmente. O choque de realidade, no entanto, bateu à porta com o desempenho do segundo ano da série.
As incertezas sobre o futuro do anime Uma produção com um orçamento tão pesado exige um crescimento constante de público para se pagar no longo prazo, fenômeno que consagrou gigantes como “Game of Thrones”. Mas “One Piece” sofreu um tropeço. Os primeiros quatro dias da segunda temporada registraram 16.8 milhões de visualizações, uma queda em relação aos 18.5 milhões da estreia. Além disso, a série não conseguiu alcançar o primeiro lugar no Top 10 dos Estados Unidos, mesmo com um bom desempenho global. A redução de público foi relativamente branda se levarmos em conta a espera de dois anos e meio entre as temporadas. Para fins de comparação, a segunda temporada de “Wandinha” perdeu quase metade do seu público original.
Ainda assim, sonhar com 12 ou até 6 temporadas soa como uma utopia no cenário atual. Hoje, o recorde de longevidade de uma série roteirizada da plataforma vai pertencer a “Virgin River”, que chegará ao oitavo ano gastando uma pequena fração do que os piratas de chapéu de palha consomem. O criador da franquia, Eiichiro Oda, já declarou que tem em mente o ponto exato onde a versão da Netflix deveria terminar, sem revelar detalhes. A terceira temporada já está em fase de produção e vai chegar ao catálogo com bem mais agilidade. Resta saber até quando o orçamento vai sustentar a jornada.