O calendário cinematográfico segue agitado e, para os amantes da tensão, as opções variam desde o suspense claustrofóbico até a sátira política escrachada. Com a iminente chegada do aguardado spin-off da franquia Um Lugar Silencioso aos cinemas brasileiros, o momento é ideal para revisitar os capítulos anteriores da saga criada por John Krasinski. No entanto, o debate sobre sobrevivência ganha contornos muito diferentes — e mais ácidos — no novo trabalho de Sam Raimi, Send Help, que vem despertando discussões acaloradas sobre dinâmicas de poder e gênero.
Onde rever a franquia do silêncio
Antes de mergulhar na nova trama que expande o universo dos monstros sensíveis ao som, vale a pena fazer a lição de casa e conferir os dois primeiros longas. Lançado em 2018, Um Lugar Silencioso apresenta uma realidade pós-apocalíptica onde a humanidade foi praticamente dizimada por criaturas que atacam ao menor sinal de ruído. A narrativa foca em uma família do meio-oeste americano que, isolada em uma fazenda, precisa adaptar toda a sua rotina ao silêncio absoluto para continuar viva.
Para quem deseja se atualizar, o primeiro filme, estrelado pelo casal Emily Blunt e John Krasinski, já se encontra disponível para aluguel nas plataformas Prime Video e Apple TV. A sequência direta, Um Lugar Silencioso – Parte 2, retoma a ação exatamente após os eventos traumáticos do original, lidando com o luto pela morte de Lee Abbott e forçando os sobreviventes a encararem o mundo exterior.
A política visceral de Sam Raimi
Enquanto a família Abbott luta em silêncio, o novo filme de Sam Raimi, Send Help, faz barulho ao misturar gêneros de forma inteligente. Longe de ser apenas um horror divertido como A Morte do Demônio ou uma aventura de super-heróis ao estilo Homem-Aranha, a obra se encaixa na vertente política do diretor. A produção remete diretamente a Arrasta-me para o Inferno, que, sob a fachada de maldições, criticava a frieza bancária durante a crise dos subprime. Desta vez, a alegoria é clara, imediata e potente.
A trama acompanha uma protagonista inserida na engrenagem corporativa: competente, mas considerada “pouco apresentável” para os padrões estéticos da empresa. O conflito explode quando o filho do dono, ao assumir a companhia, nega a ela uma promoção merecida, favorecendo a cultura dos “bros” — homens que sabem navegar socialmente, mas pouco produzem. O destino, contudo, intervém através de um desastre aéreo que deixa patrão e funcionária isolados em uma ilha deserta.
Náufragos e inversão de papéis
O cenário isolado serve de palco para uma inversão total de hierarquia. Enquanto ele é incapaz de acender uma fogueira, ela domina técnicas de sobrevivência. A premissa lembra a segunda metade de Triângulo da Tristeza ou o clássico Por um Destino Insólito, de Lina Wertmüller, mas Raimi remove o componente sexual ou ideológico partidário para focar na política do indivíduo. É uma representação brutal da fadiga feminina ao tentar ocupar espaços de poder para os quais está qualificada, mas que lhe são negados por aparências.
O tom adotado é o grande trunfo da produção. Não se trata de um drama sóbrio, mas de uma comédia com soluções absurdas, quase cartunescas, mesclada a um horror sangrento e satírico. O filme convida o espectador a um percurso intelectual complexo: inicialmente, torcemos pela protagonista oprimida. Porém, quando ela assume o controle na ilha e passa a agir como uma ditadora, humilhando o herdeiro arrogante, a audiência é colocada em xeque. Raimi utiliza esse desconforto para questionar o que é necessário para que um homem aceite a subalternidade perante uma mulher.
Gentileza ou revolução?
Mesmo quando a protagonista parece flertar com a loucura ou a vingança desmedida, o roteiro deixa claro que a “sociedade de duas pessoas” criada na ilha, apesar de infernal, ainda é mais justa do que o ambiente corporativo anterior. O filme culmina na lição de que não há espaço para gentilezas quando o sistema não reconhece méritos.
Como alerta um dos diálogos cruciais direcionado ao personagem machista: “Não confunda gentileza com fraqueza”. Ao fim, Send Help se consolida não apenas como entretenimento, mas como um manifesto de que, para quem vive em situações de subalternidade sem saída visível, medidas extremas e atitudes radicais podem ser, na verdade, o mínimo necessário para a sobrevivência.