Karl Lagerfeld, diretor artístico da Chanel (Olivier Saillant/Chanel)

Chanel à Havana

Conteudo Isobar

A Chanel apresenta, em Cuba, a coleção Cruzeiro 2016/17

Não que a recente chegada do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, haja passado desapercebida, longe disso. É que talvez tenha se firmado como instante mais insólito do novo contexto a que Cuba se submete o desfile esbanjado pela Chanel, no Passeio do Prado, conhecido boulevard da capital, Havana.

Embora incipiente, a aparente fenda permitida pelo regime comunista cresceu um tanto mais, nessa terça-feira (3). Especulações à parte, coube à ilha ser, pela primeira vez na história da América Latina, sede de um desfile da Chanel. A expressão máxima da haute couture (alta costura, em francês) acabou por penetrar fronteiras que já a tacharam “subversiva”. Sinal dos novos tempos.

Na capital cubana, a grife francesa aterrissou a coleção Cruzeiro 2016/17, vestimentas adequadas a passeios marítimos, peças leves e coloridas, ideais para dias de verão, com formatos suaves e de inspiração vintage.

O protocolar desfile de passarela deu lugar à volta descontraída dos modelos, a céu aberto, pelo charmoso chão de mármore do Passeio do Prado. Entre eles, três cubanas. O outro representante local, Tony Castro, neto de Fidel, ficou de fora, apesar de ter tido a presença assegurada na véspera.

Aos 82 anos, Karl Lagerfeld, designer vitalício da Chanel, manteve as luvas, os óculos escuros e o paletó de lantejoulas da Saint Laurent durante toda a apresentação do Cruzeiro. Na noite de gala, o estilista alemão chegou a gabar-se à revista Women’s Wear Daily de sua aptidão na dança, especialmente em ritmos latinos, inclusive tango.

Na pista, ele correspondeu às expectativas: bailou com as atrizes francesas Vanessa Paradis e Cécile Cassel. A performance acabou flagrada pelas câmeras dos convidados.

A coleção da Chanel, explicou Lagerfeld, foi inspirada na riqueza, na cultura, na beleza e no momento de distensão vivenciado por Cuba. O evento da maison, contudo, fechou-se ao grande público.

A galeria dedicada ao diretor artístico da marca, montada em edifício de propriedade estatal, dispunha de seleta lista de convidados na entrada. Entre os quais, a top model brasileira Gisele Bündchen, a atriz britânica Tilda Swinton e o ator norte-americano Vin Diesel, que está gravando, na ilha, novo longa de Velozes e Furiosos.

HABANA, MI QUERIDA

Com sol abundante e calor o ano inteiro, Cuba vem atraindo holofotes desde que optou pela trégua com os EUA. O centro turístico é Havana, emblemática cidade de pujança cultural e artística. Os mais frequentados lugares da capital cubana parecem ter estagnado no tempo, por conta dos veículos antigos e do desenho arcaico de prédios e monumentos.

O calor de Havana atenua-se com rum branco, limão e açúcar: ingredientes utilizados na confecção do Daiquirí, popular drink cubano. Na rua Obispo, Havana Velha, o bar El Floridita guarda rara receita, apreciada pelo escritor norte-americano Ernest Hemingway, nos idos de 1920.

Diversos artistas se apresentam no tradicional recinto, afinados no melhor da música local, considerada das mais belas e proeminentes do mundo.

O porão do Teatro Nacional de Cuba, na Praça da Revolução, abriga o Café Cantante Mi Habana, onde a música ao vivo é, invariavelmente, o carro-chefe. Madrugada adentro, dançar é liberado e exaustivamente repetido. A execução da salsa, ritmo sensual do Caribe, sobra às melhores e imperdíveis bandas da capital cubana.

Na ilha comunista, as opções gastronômicas começam a engatinhar com apoio do regime dos irmãos Castro. Recentes reformas econômicas realizadas pelo presidente Raúl trouxeram alguns resultados animadores. Um deles tomou a forma de restaurante, o Atelier, aberto há pouco, em Havana.

O cardápio da casa é escrito, diariamente, a mão, em cartões de racionamento do governo comunista. Os pratos, por sua vez, são preparados de acordo com a disponibilidade de ingredientes frescos. O tímido empreendedorismo cubano arrisca-se, mesmo que com limitações.

Para quem viveu no país pelos últimos quase 60 anos, as novidades da ilha parecem ponto fora da curva. O breve contato com o papa Francisco, a aproximação do presidencial Air Force 1 nos céus de Havana, o luxo da Chanel no Passeio do Prado, o rock dos indesejáveis Rolling Stones: resta imaginar o que estaria Che Guevara pensando agora.

Nos atuais tempos de abertura, Cuba experimenta algo perto do inimaginável, considerado o percurso desde a revolução, em 1959.

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