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Arquitetura do suspense

Conteudo Isobar

Obras de Alfred Hitchcock constroem tensão cinematográfica a partir de  referências e elementos ligados à arte de projetar ambientes.

Poucos sabiam (e outros poucos sabem até hoje) que certo jovem que começara a sua carreira no cinema como set designer na Alemanha no começo dos anos 1920 se tornaria, nas décadas seguintes, um dos maiores diretores da história do cinema. Admirado por vários contemporâneos com trabalhos muito distintos – gente do calibre de François Truffaut ou Jean-Luc Godard, por exemplo – o mestre do suspense Alfred Hitchcock ganha, agora, um livro que aborda a dimensão da sua obra sob a ótica da arquitetura.

Faz todo o sentido, já que, como diretor, Hitchcock sempre trabalhou meticulosamente com a estrutura do set. Detalhes minuciosos são usados para a construção ambiental dos suspenses de diversas obras do autor de “Psicose”, “Janela Indiscreta”, “Festim Diabólico”, dentre tantos outros clássicos que fazem parte da espinha dorsal do universo cinematográfico.

No livro “The Wrong House: The Architecture of Alfred Hitchcock”, cuja reimpressão foi feita agora pela editora nai010 (sem previsão de lançamento no Brasil, mas pode ser encontrado na Fnac), isso soa como uma epifania, já que o cineasta aparece como um arquiteto “inexistente” e profundamente preocupado com a direção de arte dos seus filmes.

Vale lembrar que eles são recheados por mansões vitorianas, casas suburbanas, apartamentos modernistas e penthouses de luxo. Há alguns elementos de design de interiores que capitulam a essência hitchcockiana: o uso abundante de escadas, mesas de jantar e janelas que, por sua vez, ampliam a perspectiva disruptiva do clímax dos filmes, dando forma a ambientes de tensão, ansiedade e distúrbio.

Cada capítulo do livro analisa um longa-metragem específico, com plantas do set desenhadas especialmente para a publicação. Dois exemplos da imersão que une arquitetura e cinema dados pelo autor, Steve Jacobs, são os sets de “Janela Indiscreta” e “Festim Diabólico”, cujos ambientes são meticulosamente analisados. O cinema de Hitchcock não é feito apenas de história, mas também de imagens – dramáticas a ponto de construir o clima ora perturbador, ora claustrofóbico.

Foi da Alemanha que Hitchcock herdou a preocupação com a atmosfera dos seus filmes, já que as películas germânicas eram consideradas mais arquitetônicas e preocupadas em projetar cuidadosamente o set. De fato, o tema da construção do set dentro da obra do cineasta não é algo novo; mas Jacobs inova ao separá-lo do movimento expressionista alemão, do qual Hitchcock é tido por alguns como sucessor natural. Em vez disso, o autor diz que o cineasta é um filho direto do Kammerspiel, devido ao foco no indivíduo enclausurado no ambiente cotidiano. E ele vai além: a preocupação ambiental de Hitchcock era tanta que o local, por si só, ganhava “vida” como um personagem elementar do filme.

É um livro considerável para a história do cinema e uma boa referência sobre Alfred Hitchcock (se você não conhece o diretor, vale olhar esse box especial que a Universal lançou). E também graças a outros aspectos que não valem a pena serem mencionados, mas serem lidos por aqueles que desejam mergulhar de cabeça na obra conduzida pelo oráculo do suspense.

(Na foto de capa, Hitchcock no set de “Os Pássaros”; créditos: | Créditos: Divulgação/Universal Pictures)

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