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Vida querida

Conteudo Isobar

Ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2013 tem obra de contos lançada no Brasil.

Quando a escritora canadense Alice Munro, 82, concluiu o seu romance “Vida Querida” (lançado no Brasil agora pela Companhia das Letras), também anunciou o desfecho da sua carreira – cujo sucesso se cristalizou no gênero do conto.

O ano era 2012, e uma das vozes femininas tidas como mais fortes da literatura mundial prometera se calar. Um ano depois, Munro ganhou o Prêmio Nobel do segmento. Mesmo assim, a canadense não deu qualquer indicativo de arrefecer na promessa. Encerrou a carreira na literatura e entrou na história como a 13ª mulher e a primeira contista da história que se consagrou por meio do prêmio literário.

“Vida Querida” é um livro de contos que funciona, também, como um epítome da carreira da escritora canadense, uma vez que quatro deles – encapsulados na segunda parte do livro, “Finale” – são assumidamente autobiográficos, e também por condensar parte da sua obra ficcional na primeira seção.

Nos contos que ela mesma rotula como autobiográficos, a vida e a infância na região rural de Ontario, no Canadá, são o fio condutor para reflexões e revelações como o fato de não ter ido ao enterro da própria mãe, pela qual ela não demonstra muita ternura no decorrer das reminiscências. Pelo contrário: há, inclusive, um sentimento de culpa seguido por absolvição, resumido no desfecho do conto homônimo ao título do livro. “Dizemos algumas coisas que não podem ser perdoadas, ou pelas quais nunca nos perdoaremos. Mas perdoamosperdoamos o tempo todo.”

Já a primeira seção, que contempla a obra ficcional, se fratura em personagens ordinários em narrativas do bric-a-brac cotidiano, de acontecimentos fortuitos e encontros casuais, ora com situações inusitadas, ora padecendo com as limitações da condição humana. Reflexo das próprias convicções da autora (sobre cuja mãe, por exemplo, recai um perfil de incompletude).

Sem auras, as mães delineadas por Munro colidem com as idealizações românticas projetadas pela cultura. São figuras maternas que abandonam seus filhos, ainda que momentaneamente, para viver um flerte casual em um trem, ou mesmo quando uma delas foge da realidade doméstica para ter um caso com um hippie quando a filha se afoga.

Existem outras personagens, inclusive personagens masculinas muito pungentes, mas são as mulheres de Munro chamam atenção. Talvez porque cada personagem transcenda a “voz feminina” na literatura. O que não significa, necessariamente, que ela seja feminista – tampouco que repudie a corrente filosófica que tanto fez pelas mulheres. A realidade é que, no caso de Munro, essa temática é uma zona cinzenta.

Em entrevista à prestigiada “New Yorker Magazine” no ano de 2012, ela resumiu a questão. “Nunca pensei em ser uma escritora feminista, mas é claro que eu não saberia. Não vejo as coisas todas juntas em uma mesma forma.” Mas tudo bem. Seu trabalho não é definir conceitos e teoremas, afinal, e sim contar histórias. As melhores possíveis e imagináveis.

VIDA QUERIDA – Alice Munro 

Tradução de Caetano Waldrigues Galindo

320 páginas; Companhia das Letras

R$ 26 (e-book) e R$ 37 (versão impressa)

Leia um trecho do livro aqui

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