Capa da biografia "Leila Diniz - Uma revolução da praia", de Joaquim Ferreira dos Santos. | Crédito: Divulgação

Uma moça livre

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Biografia de Leila Diniz narra momentos marcantes da vida pessoal e profissional da atriz, ativista e garota da praia.

Talvez as atuais gerações olhem para a foto de uma grávida curtindo o mar e não tenham ideia do impacto que a cena causou no Brasil na década de 1970. O choque ocorreu por conta de duas pequenas peças de roupa e uma barrigona exposta. Até então, gestantes não costumavam frequentar praias e, acaso fosse necessária sua permanência nas areias escaldantes, elas se resguardavam debaixo de amplos maiôs e saídas de praia. Dali em diante, mulheres de todo o país criaram coragem para ostentar seus biquínis e bronzeados do jeito que quisessem.

Mas foi antes daquele dia de sol em 1971 que Leila Diniz já deixava sua marca na tradicional sociedade brasileira, mergulhada na rigidez da ditadura militar. A espontaneidade da atriz fazia dela uma revolucionária, que se dedicava ao prazer e à sua liberdade. E a história dessa brasileira que ajudou a traçar novos caminhos para as mulheres de hoje está na biografia “Leila Diniz – Uma revolução na praia”, de Joaquim Ferreira dos Santos, editado pela Companhia das Letras.

Leila nasceu em 1945, foi protagonista da primeira produção de novela da Globo, em 1965, e também fez parte da história do cinema nacional, tendo atuado nas comédias de Domingos de Oliveira e nos filmes experimentais de Nelson Pereira dos Santos. No teatro, esteve na revista tropicalista “Tem banana na banda” e era uma das vedetes mais admiradas da época, cobrindo-se de plumas, paetês e figurinos mínimos.

Apesar da trajetória de apenas 27 anos, Leila era uma atriz com currículo invejável e no auge de sua carreira, mas nada se compara à sua contribuição para o comportamento feminino. Era conhecida por falar sobre sua vida sexual e soltar palavrões sem o menor constrangimento. Em sua célebre entrevista ao Pasquim, em 1969, Leila estava à vontade, de toalha sobre os cabelos, e dezenas de asteriscos no lugar das palavras censuradas pela ditadura pelo “baixo calão”. E ainda disse: “Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para cama com outra. Já aconteceu comigo”.

É nesse contexto, de uma autêntica revolucionária, sobrevivente também de uma infância dramática, que o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos apresenta a biografia da atriz, parte da coleção Perfis Brasileiros, coordenada por Elio Gaspari e Lilia M. Schwarcz. Desde a adolescência, em que Leila perambula pelos bares de Copacabana e Ipanema, até os dias em que foi julgada, num programa de TV, e condenada como nociva à sociedade, o autor conta as grandes passagens da vida da atriz, que conseguiu transformar a moda e os modos.

Um extenso caderno de fotos e uma cronologia com os principais acontecimentos no Brasil e no mundo mostram tudo sobre a moça que, nas palavras de Carlos Drummond de Andrade, “sem discurso nem requerimento soltou as mulheres de vinte anos presas ao tronco de uma especial escravidão”.

Nas palavras da própria Leila: “Sobre minha vida, meu modo de viver, não faço o menor segredo. Sou uma moça livre”.

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