Espetáculo "Gritos" (crédito: Renato Mangolin)

Três gritos gestuais

Conteudo Isobar

CCBB traz outra obra inédita da companhia Dos à Deux

Os atores André Curti e Artur Luanda Ribeiro compuseram a primeira montagem juntos há quase 20 anos. Àquela altura, fundariam a companhia de teatro franco-brasileira Dos à Deux. A longeva parceria entre eles e o desejo de trabalhar em duo novamente, como no início da carreira, fizeram nascer mais um espetáculo inédito.

A companhia Dos à Deux estreia, agora em novembro, o espetáculo Gritos, com concepção, dramaturgia, cenografia e direção de André e Artur. A primeira parada da turnê é no CCBB do Rio de Janeiro, a partir do dia 17.

Gritos é composto por três poemas gestuais metafóricos elaborados a partir de temática única: o amor. A atmosfera onírica do espetáculo é resultado da partitura de movimentos sutis e minuciosos executados pelos atores. Temas atuais, como o preconceito, o desprezo e os refugiados da guerra, permeiam os três atos.

Depois de anos atuando no teatro gestual, a dupla experimenta, neste novo trabalho, a transformação de seus próprios corpos em bonecos de proporções humanas. Cabeças, mãos, braços e pés foram esculpidos em gesso e trabalhados com diferentes materiais pela marionetista russa Natacha Belova e pelo colega brasileiro Bruno Dante.

“Essa pesquisa, na fronteira entre artes plásticas, formas animadas, teatro e dança, nos fez ter uma nova sensação gestual que, até então, não havíamos experimentado. Um gestual potente, complexo e contido”, explica Artur.

“Ao longo da criação, na pesquisa de formas animadas, nós fomos dando vida ao invisível dos corpos, aos poucos. Como se a vida tivesse arrancado um pedaço desses personagens, nos obrigando a dar poesia e intenção a objetos que se tornaram corpos, e corpos que se tornaram objetos”, completa André.

A cenografia do espetáculo é feita de instalação mutável plástica composta por estruturas de colchões de mola, que se tornam objetos insólitos ao longo da peça. Durante certos instantes, por exemplo, os colchões chegam formar labirintos de onde os personagens buscam saída.

OS GRITOS

O primeiro poema metafórico de Gritos conta a história de Louise, mulher que nasceu em corpo de homem. Esse é o momento em que masculino e feminino habitam o mesmo universo, sendo um o fantasma do outro. Quatro pernas, duas cabeças e mais uma boa dose de jogo de ilusão contribuem para o turbilhão carregado de preconceitos, de intolerância e de homofobia.

Na segunda etapa do espetáculo, o poema gestual retrata indivíduo que perdera a cabeça. Um muro a divide do restante do corpo, mas com ambos a dançar à procura da outra parte, sem saberem se a tal barreira é real ou fictícia. A encenação mantém-se no âmbito dos sonhos e do absurdo.

O terceiro poema metafórico trata da guerra. Vestida de preto, uma mulher do Extremo Oriente apresenta-se com gestos lentos e beleza marcante. Em meio a um mar escuro de tecidos, partes do corpo de um homem surgem vagarosamente. Dá-se início a uma misteriosa dança de amor ao som de explosões de bombas.

Após passar pelo Rio de Janeiro, o espetáculo Gritos segue para Brasília, São Paulo e Belo Horizonte. Para mais informações, acesse o site do CCBB.

Mais Matérias