Retratos da série Polvo Portraits IV (China Series), de 2014. | Crédito: Cortesia Galeria Fortes Vilaça

Todas as peles

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Adriana Varejão cria a série Polvo, obra de arte que discute raça e miscigenação no Brasil.

Qual é a sua cor? Normalmente, o censo oficial brasileiro, realizado pelo IBGE, oferece cinco respostas a essa pergunta: branco, preto, vermelho, amarelo e pardo. Em 1976, no entanto, a pesquisa deixou essa questão em aberto. O resultado foram 136 termos diferentes, entre eles alguns inusitados, entre os quais “Café com Leite”, “Encerada”, “Morenão”, “Cor Firme”, “Branquinha”, “Sapecada” e “Queimada de Sol”.

Esses e outros termos foram selecionados por Adriana Varejão em seu mais recente trabalho, a série Polvo. A artista escolheu as 33 definições mais exóticas, poéticas ou vinculadas a uma interpretação especificamente brasileira de cor como suposto social. A partir delas, desenvolveu suas próprias tintas a óleo baseadas em tons de pele.

Fruto de 15 anos de pesquisa sobre a representação das cores de pele dos brasileiros, o resultado mais imediato da obra é o conjunto Polvo: uma caixa de madeira com 33 tubos de tinta e tampa de acrílico, em tiragem de 200 exemplares. Os designs dos tubos teve colaboração do joalheiro Antonio Bernardes.

Além da coleção Polvo, Varejão também apresenta uma série de pinturas, elaborada a partir dessas tintas e intitulada Polvo Portraits. As pinturas são a própria Adriana interpretada por pintores retratistas, sob encomenda. A cor da pele da artista nos retratos se mantém neutra, acinzentada. A partir daí, Varejão complementou cada imagem com seu toque autoral: pinturas faciais de caráter geometrizante e inspiração indígena, feitas com as 33 cores Polvo. Acompanhando os retratos há pinturas circulares abstratas que trazem somente tabelas de cores das tintas.

Exibidas originalmente em maio numa gigantesca parede da Galeria Fortes Vilaça, em São Paulo, a sequência de peças faz pensar sobre raça e identidade. “Cor é linguagem”, defende Adriana, “quando nomeamos todos esses matizes de peles, a gente dilui a questão das grandes raças – conceito, aliás, já derrubado por terra pela biologia”, pontua.

Nascida em 1964 no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha, Adriana Varejão é uma das principais artistas brasileiras em atividade e teve suas mais recentes exposições apresentadas em São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Paris, Tóquio, Lisboa, Sidney, Nova Iorque, Londres, entre outras. De novembro até abril, ela apresenta trabalhos seus desde 1993 até a série Polvo em sua primeira exposição individual no Institute of Contemporary Art (ICA), em Boston.

E qual é a sua cor?

 

Crédito da foto de abertura: Cortesia Galeria Fortes Vilaça

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