"El Pie de Gala" (1975-1976), que também ilustra a foto de capa da reportagem| Crédito: Divulgação/CCBB

Surréalisme, c’est moi

Conteudo Isobar

CCBB recebe exposição inédita do pintor espanhol mais irreverente e importante de todos os tempos.

Diz a história que Salvador Dalí foi um grande tímido e um ilustre recluso – quem sabe, devido a isso, veio a caracterização tão marcante do seu personagem e alter-ego surrealista. A grande responsável por espalhar esse fato legendário foi Montse Aguer, a maior especialista sobre Dalí no mundo. Pudera: ela trabalhou muito próxima a ele, enquanto assessora e secretária do artista em seus últimos anos de vida.

Montse, hoje, é autora de vários livros sobre uma das figuras mais admiráveis e intrigantes do século 20. É dela, também, a curadoria da maior exposição do artista no Brasil, com 150 obras em exibição aberta e gratuita no CCBB Rio até setembro (veja as informações completas aqui).

Em entrevista exclusiva à Revista Estilo BB, ela conta um pouco mais sobre o legado deixado ao mundo contemporâneo pelo autor da cáustica, célebre e nada modesta frase “Surrealismo, esse sou eu”.

REVISTA ESTILO BB – Como definir Salvador Dalí? 

MONTSE AGUER - Salvador Dalí é um criador no sentido mais amplo do termo e, a exemplo dos artistas do Renascimento que ele admirava, vai muito mais além da pintura. Dalí elabora sua obra tanto a partir de complexos e de diversas linguagens artísticas quanto partindo da construção de um personagem. E ele faz isso de maneira sistemática, quase programática, já que deseja ir mais além do nível de influência do artista na sociedade das massas. Dalí é apresentado como um gênio que constrói um personagem, o que acaba sendo uma de suas criações mais marcantes e que o situa como um evidente referencial de Andy Warhol, mas que, ao mesmo tempo, se baseia também na ideia de gênio do Renascimento, o humanista que trabalha em diferentes âmbitos da criação.

Dalí é conhecido pela arte surrealista, mas a atividade criativa dele não se resume apenas a isso. Quais são as principais fases que capitulam a trajetória do artista? Dentro disso, o que o público brasileiro poderá conferir na exposição?

Com essa mostra, propomos um olhar que nos ajude a compreender Dalí em todas as suas vertentes: pintor, designer, pensador, escritor, apaixonado pela ciência, catalisador das correntes de vanguarda, ilustrador, desenhista, cineasta, cenógrafo. E também como um inconformista, com uma atuação pessoal capaz de perceber a crescente importância da cultura de massas e, evidentemente, enquanto artista que experimenta em todos os campos da criação – incluindo os mais inovadores, como instalações e performances.

Como ocorre a intersecção entre realidade e sonho, tão comuns na obra do artista?

Dalí escreveu em 1930: “A paranoia se serve do mundo exterior com o propósito de fazer valer sua ideia dominante, como também se caracteriza pela particularidade perturbadora de fazer com que os que nos rodeiam aceitem a realidade desta ideia. A realidade do mundo exterior é usada para ilustrar e justificar, de maneira que, desta forma, venha para servir e se acomodar na realidade da nossa mente”. Essa definição de Dalí nos dá a chave.

A senhora poderia explicar o que é o método paranoico-crítico na criação de Dalí?

O método paranoico-crítico de interpretação da realidade é a grande contribuição dele ao Surrealismo. Dalí apela ao nosso subconsciente e ao nosso desejo e simultaneamente à nossa memória, à nossa capacidade de interpretar o mundo de maneira polissêmica. Ele procura apreender a realidade para além do olho humano. Nesse sentido, cabe destacar que o destinatário da sua obra é a mente do espectador.

Dalí acreditava na duplicidade de imagens ou em imagens invisíveis que se relacionam com o seu método paranoico-crítico de interpretação da realidade, que, por sua vez, se relaciona com a paranoia. Ele recria a imagem dupla de maneira concreta, isto é, obtém uma imagem que, sem alterar nenhum dos elementos que a ajustam, pode ser, por um simples estímulo da nossa vontade, outro sujeito completamente distinto do primeiro representado pelo artista. As imagens provocam em nós, espectadores, e em nossa visão de mundo, significados ocultos ou esquecidos. A realidade adquire validade a partir da aceitação e da interpretação dos que contemplam a obra.

Dalí se considerava melhor escritor do que pintor. Por quê? Ele está certo? É possível ver os seus escritos na exposição?

Seguramente é uma provocação, mas se bem que não podemos deixar de considerar que Dalí é um grande escritor do século 20. Sua autobiografia, “A Vida Secreta de Salvador Dalí”, é de leitura imprescindível para se conhecer a sua trajetória e o seu pensamento.

Por meio de catálogos de exposição anteriores, de artigos em revistas e de entrevistas dele, podemos ter acesso ao Dalí escritor nesta exibição.

De que forma a ciência e a tecnologia podem ser vistas na obra de Salvador Dalí?

Dalí tem a ciência como uma de suas paixões mais duradouras. Seus interesses são múltiplos: física, mecânica quântica, origem da vida, evolução, matemática, genética, psicologia e ótica. Ao fim da vida, está muito interessado na obra “A História do Tempo”, de Stephen Hawking, além da teoria das catástrofes de René Thom.

É o período compreendido entre 1962 e 1978, quando sua obra se vê mais influenciada pelo impacto da ciência – primeiro pela genética, concretamente pelo DNA e sua estrutura. Dois anos mais tarde, começa a despertar o seu interesse por holografia e também pela arte tridimensional.

A ciência procura respostas para Dalí às suas perguntas. Sua desinibição cientificista se converteu em um maravilhoso percurso pelos acontecimentos científicos do século 20, ao menos pelo que especialmente os impressionou.

Sendo Dalí um dos maiores representantes da arte, que tipos de legado e de questionamentos a obra dele nos traz para o mundo contemporâneo?

É preciso destacar a busca dos limites da arte em relação a capacidades técnicas, temáticas e expressivas, e também com a sua vontade de contar com o espectador. Também em sua criação, construção de um personagem como uma obra de arte a mais.

Na sua visão, quais as obras fundamentais de Salvador Dalí?

As obras da sua época surrealista, que expressam todo o seu universo onírico. Mas também uma obra de arte total como é o seu museu em Figueres, o Teatro-Museu Dalí, em que o continente e o conteúdo expressam e nos ajudam a compreender a trajetória e o pensamento surrealista.

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