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Rei do cacau

Conteudo Isobar

Consagrado internacionalmente, escritor baiano Jorge Amado difundiu o cacau brasileiro pelo mundo.

O Brasil pode não ser o país mais tradicional do chocolate como Bélgica ou Suíça, mas foi daqui que a matéria-prima dessa iguaria se projetou nos anais da literatura. Quem conhece um pouco da obra do escritor baiano Jorge Amado (1912-2001) sabe que seus livros usaram como pano de fundo o cacau, suas fazendas e o trabalho de colheita e de produção.

Paulo Coelho é o escritor que chegou à fortuna, mas certamente foi Jorge Amado quem popularizou a literatura brasileira para o mundo, já que o autor foi traduzido em 49 idiomas e chegou a 55 países. Diante do centenário do escritor, celebrado em 2012, a gigante editorial Penguin Books reeditou dois livros dele para distribuição internacional.

Não só: a Companhia das Letras, detentora dos direitos do baiano em solo nacional, pôs no ar um site historiográfico sobre criador e suas mais de 30 criaturas, as obras aclamadas por escritores da estirpe do português José Saramago (que escreveu o posfácio do último livro de Amado) e do moçambicano Mia Couto – que, por sua vez, disse: “Jorge Amado não escreveu livros, escreveu um país”.

É verdade: muito do contexto social brasileiro é apresentado em romances nos quais o cacau é ambientado. A segunda obra do escritor, inclusive, leva o título do fruto, cujo nome científico é Theobroma cacao (“alimento dos deuses”). Romance curto, quase em formato de reportagem, tem fortes conotações políticas – Amado foi um célebre comunista – e linguagem vanguardista para a época em que foi lançado (1933). Conta a história de um lavrador, em primeira pessoa, que divide um casebre com outros trabalhadores em uma fazenda de cacau. Traduzido em dez idiomas, é um romance panfletário, tão jovem quanto o escritor à época, e engajado na causa trabalhadora.

“Terras do Sem Fim” seria o segundo romance que usa as relações das grandes fazendas cacaueiras como cenário. Recheado de políticas, adultério e crimes passionais, faz dupla com a obra “São Jorge dos Ilhéus”, já que ambas narram a história de terras virgens desbravadas para a lavoura cacaueira – e para a consequente formação da sociedade no entorno, sob regência dos conhecidos coronéis ou barões do cacau. Cada romance, contudo, enfoca épocas distintas de um universo repleto de violência, riqueza e, ao mesmo tempo, miséria espalhada pelos camponeses pobres das fazendas que manipulavam esse fruto.

Mas o mais célebre de todos certamente é “Gabriela Cravo e Canela”, que virou filme, novela, minissérie e até uma canção de Tom Jobim – outro grande responsável por popularizar a cultura brasileira pelo mundo. É o romance de Jorge Amado com o maior número de traduções, em 32 idiomas, no total.

O livro conta a história da retirante Gabriela, que, fugindo da seca do sertão baiano, vai parar em Ilhéus e se envolve com o sírio Nacib. Sexy, Gabriela atrai muitos moradores da cidade, dentre eles coronéis, jagunços, trambiqueiros e outros, todos eles imersos na sociedade cacaueira na Ilhéus rica da década de 20. História carismática e que põe em xeque muitos conceitos morais das convenções sociais, “Gabriela Cravo e Canela” seduziu e levou o Brasil e suas terras de cacau ao estrelato literário.

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