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Confira uma seleção de canções mais românticas de todos os tempos.

Existe uma dúvida fundamental e comum que move a humanidade no inconsciente coletivo ao longo dos séculos: a definição de amor. Alguns epítetos vêm à cabeça e podem definir, ainda que parcialmente: charme, feitiço, sex-appeal, companheirismo, romantismo, amizade e por aí vai. Mas o fato é que amor é o que nos torna humanos, na acepção Homo sapiens da palavra.

Não fosse um sentimento de expressão tão complexa (e variável, já que há diversas nuances de amor), essas definições bastariam. Mas não é bem assim, já que, na busca constante para definir essa intrincada rede de conexões cerebrais, artistas vêm criando mais definições que expressem a questão – o que culminou em obras fantásticas ao longo dos séculos.

Afinal, como disse um dos expoentes das canções românticas, “grandes artistas sofrem pelo seu público”. E é com o autor da frase, Marvin Gaye, que a Revista Estilo BB tem a honra de começar uma playlist que arrebatou corações (mas sem recair no clichê e no excessivamente pop) ao longo dos últimos dois séculos. Não há ordem de preferência, então, a prerrogativa é apreciar o amor nas suas mais variadas formas – para ouvir a música, basta clicar no nome da faixa.

Marvin Gaye – “Let’s get it on

“Let me groove ya… good”, cantarola um dos maiores astros do funk, soul e R&B dos Estados Unidos, no disco lançado em 1973 – que também intitula uma das mais simbólicas e grooveadas músicas de amor de todos os tempos. É um dos hits da lendária Motown e um divisor de águas para Marvin Gaye, já que é um dos primeiros trabalhos em que ele e sua banda desenvolvem sem ingerência dos empresários da gravadora. Foi autor de muitas canções que versam sobre o tema e ganhou a notoriedade de dois Grammys por “Sexual Healing”. Multi-instrumentista e compositor talentoso, Gaye é um Midas dos love songs. Sua sensibilidade também tem a face da tragédia: ele morreu por dois tiros desferidos pelo próprio pai em 1984, um dia antes de completar 45 anos. Deixou, indubitavelmente, o seu nome foi cristalizado na história da música.

 Chris Isaak – “Wicked Game”

É o Santo Graal das músicas de obsessão amorosa. Seu refrão “no, don’t want to fall in love (this love is only gonna break your heart) with you”, cantado pela voz aveludada em falsetto  de um tenor que se enredava nas brumas da paixão, conquistou fãs pelo mundo depois do clássico filme “Coração Selvagem”, de David Lynch (a trilha era assinada por Angelo Badalamenti). A leve pegada rockabilly nas guitarras de James Wilsey com notas oscilantes e ascendendo progressivamente à altura de um eventual conflito fazem “Wicked Game” evocar o amor para além da distração, chegando até em certo incômodo. Daí o tom melancólico-sombrio daquela paixão que tortura a alma, ou o ponto de questionamento ligeiramente antes de se entregar.

Chico Buarque, Tom Jobim e Paula Morelenbaum – “Eu te amo”

Música-poema que demonstra o porquê de Chico Buarque e Tom Jobim serem dois dos compositores mais respeitáveis do Brasil. Narra um amor visceral por toda a letra – por exemplo, “se na bagunça do teu coração/ meu sangue errou de veia e se perdeu” – com o seu possível desfecho. Assim como o sujeito sente a ruptura na letra, na melodia, a construção dos intervalos de cada semitom é igualmente rompida, numa assimetria que pretende se recolocar no lugar – um efeito de eco ao que é vivido na canção. Em síntese, a mesma história vivida na letra é repetida e “narrada” na melodia.

Leonard Cohen – “Dance Me To The End of Love”

Um dos mais respeitáveis nomes do folk da história, o poeta, escritor e cantor judeu-canadense fez essa bela canção romântica inspirada no – pasme – Holocausto judeu. Como ele próprio disse, “(…) isso veio porque soube que, em algum dos campos de extermínio, um quarteto de cordas foi pressionado a tocar ao lado do crematório enquanto esse horror estava acontecendo, e eram pessoas cujo destino seria o mesmo. ‘Dance comigo a sua beleza com um violino ardente’ significa a beleza existente na consumação da vida, e do elemento passional nessa consumação, mas é a mesma linguagem que usamos para a entrega ao amado – não é importante que ninguém saiba a gênese disso porque se a linguagem vem de uma fonte passional, ela será capaz de abraçar todas as atividades passionais”.

Neil Young – “Harvest Moon”

É uma das grandes canções de amor de todos os tempos, em um disco milimetricamente construído, homônimo e com temas variados. “Harvest Moon”, em tradução, é a lua da colheita americana, uma metáfora para a renovação do amor – e é justamente para o ambiente rural que o clipe transporta a música. A melodia tem suave inspiração em “Walk Right Back”, dos Everly Brothers, e o roadie Larry Crag faz uma participação especial: “riffs” de vassoura que dão o ritmo ao fundo.

Tim Maia – “Réu Confesso”

O rei do soul brasileiro fez o hino de redenção mais dançante de todos os tempos, uma exceção na vida de um cantor muito talentoso – e excêntrico na mesma proporção – já que, segundo consta em sua biografia, era avesso a desculpas. Canção do amor arrependido ou não, a composição  garante uns bons passos de dança no groove abrasileirado – ou a melhor fase de uma das figuras mais saudosas da música nacional.

Bebel Gilberto, Dé e Cazuza – “Eu preciso dizer que eu te amo”

Os dois roqueiros egressos do Barão Vermelho e a filha de Miúcha e João Gilberto se uniram para fazer a primeira canção do EP de Bebel, no estilo MPB voz e violão. Inspirada de um verso bíblico – Cazuza lia muito a obra judaico-cristã à época – a música saiu em “uns 40 minutos”, segundo contou a cantora no livro “Eu preciso dizer que te amo – todas as letras do poeta”. A canção ficou famosa um ano depois, em 1987, na voz da cantora Marina.

I feel love – Donna Summer

Produzida pelo papa da música eletrônica Giorgio Moroder, simboliza a inserção dos sintetizadores na disco music, antes produzida com elementos orgânicos. Não apenas o estilo ganhou, mas também a dance music (guarda-chuva que abriga todos os estilos de música eletrônica), que é profundamente marcada por essa fusão. Linha de baixo sincopada, um vocal hipnótico e camadas generosas de sintetizadores emulando uma banda fazem com que, mesmo hoje, a música não pereça ao tempo. Mas, atenção: não é para dançar juntinho – é para cair na pista de dança com muito amor.

Frank e Nancy Sinatra – “Something Stupid”

A autoria da música é de C. Carson Parks, mas foi no dueto de “The Voice” e da sua filha que ganhou fama. A doçura da versão cantada entre Nancy e seu pai logo conquistou a América, e a alçou ao topo das paradas em 1967 durante um mês.

Bon Iver – Skinny Love

Representante da nova geração dor de cotovelo, a banda folk Bon Iver, liderada e fundada pelo cantor Justin Vernon, faz lindas e melancólicas canções sobre amores e perdas. Foi escrita em um momento de ressaca emocional do cantor: duas separações (banda e namorada) e uma perda volumosa de dinheiro no pôquer online fizeram-no se isolar em uma cabana de caça em Wiscosin. Segundo Iver, a canção é para aquele tipo de amor miserável, no qual se engaja apenas porque se precisa de ajuda – e isso não tem peso algum. “Ele não tem chance alguma porque não é alimentado”, declarou.

Barry White – You`re The One I Need

A tarefa de escolher apenas um som de Barry White é árdua, já que, a exemplo de Marvin Gaye, todas as canções têm o decalque do amor e ele é um dos seus mensageiros natos. Embora seja um clássico do soul e do R&B com a voz inconfundível de White, essa música não emplacou nas paradas musicais da época (o ano era 1979), o que não diminui a sua grandiosidade.

Isaac Hayes – The Look Of Love

Você já deve ter ouvido essa à exaustão – mas trata-se de uma reversão única, instrumentalmente falando. A importância dessa cover é tamanha que trechos dela foram sampleados (isto é, usados por outros artistas em suas próprias músicas) inúmeras vezes em gêneros como hip-hop e R&B.

Portishead  – Glory Box

Clássico do gênero de música eletrônica trip-hop, foi lançado em 1995 com um sample da linha de baixo de “Ike’s Rap II“, do supracitado Isaac Hayes, mas com modificações genuínas graças às guitarras e bateria. A voz envolvente de Beth Gibbons tem uma pegada para lá de jazzística e a letra versa sobre uma frustração às vésperas de uma desistência amorosa – “Glory Box”, aliás, é um termo australiano para um móvel onde mulheres guardam peças e roupas para a preparação do casamento.

Jane Birkin e Serge Gainsbourg – Je T’aime… Moi Non Plus

Um dos casais mais emblemáticos da jet-society europeia nos anos 60, e que recentemente ganhou uma edição de portraits da Taschen (leia a reportagem da Revista Estilo BB aqui). A música quase foi cantada pela atriz Brigitte Bardot, ex-affair de Serge – diante do término do relacionamento, ela se recusou. A letra libidinosa foi o rastilho de pólvora para que a polêmica se propagasse e a canção fosse proibida em diversos países – no Brasil, inclusive. Uma amostra a conta-gotas do poder de Gainsbourg que, segundo o ex-presidente francês François Mitterrand, foi o “Baudelaire dos nossos tempos”.

Não é uma lista completa, já que o acervo musical sobre paixões e romances é infinito. Agora, é tocar a playlist e deixar o amor enfeitiçar.

(Na foto que abre a reportagem, os cantores Serge Gainsbourg e Jane Birkin | Crédito: Divulgação/Taschen)

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