"O direito à preguiça (órgão-andaime)", de Nuno Ramos (Livia Jarjour)

Ócio como direito

Conteudo Isobar

CCBB de Belo Horizonte recebe exposição de Nuno Ramos

Desde que começou a pintar, em 1984, Nuno Ramos pavimentou caminho rumo à condição de premiado multiartista. Hoje cineasta, escritor, compositor, cenógrafo, desenhista, escultor, além de filósofo – diploma concedido pela Universidade de São Paulo (USP) –, ele coleciona exposições no Brasil e no exterior.

O repertório artístico diversificado do paulistano está aberto à visitação, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. A exposição inédita O Direito à Preguiça permanece no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) da capital mineira até o final do próximo mês. “Eu quis fazer aqui por causa desse pátio, que eu acho lindo. Esse foi meu anzol”, elogiou.

Os elementos da exposição são musicais e dinâmicos. Instalações inusitadas captam atenção, seja pela finalidade, seja pela engenhosidade. Nuno Ramos classificou o resultado de “irritado”, em referência ao tom de protesto incorporado do marxismo. A publicação homônima O Direito à Preguiça, do revolucionário francês Paul Lafargue, genro de Karl Marx, é a fonte intelectual da qual o artista bebeu.

Lafargue contesta a máxima de que “o trabalho dignifica o homem”. Os argumentos do autor estão embasados nas condições lastimáveis dos operários parisienses por volta de 1880. Para ele, as estafantes jornadas na capital francesa, acima de 12 horas, só seriam sanadas com o direito ao ócio.

A retórica marxista inspirou Nuno a ocupar a galeria do CCBB de Belo Horizonte com um andaime de 15 m de altura. A estrutura é, em parte, um órgão, desses de igreja. Os tubos são abastecidos por um compressor de ar, enquanto um sofware cuida da execução, em loop, do consagrado Samba de uma nota só, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

A música nacional marca igualmente as Gangorras, obras cujos conceitos abordam equilíbrio e troca. Na primeira delas, o áudio de um filme com Nelson Cavaquinho está contraposto a uma pequena destilaria. “Serão 24 garrafas, 24 quadros do filme, um quadro por garrafa de cachaça”, resume Nuno.

A outra estrutura contrapõe o samba Isso não se atura, de Carmem Miranda, a uma espécie de liquidificador, encarregado de triturar periódicos do dia. “É a notícia virando matéria de novo, voltando a ser uma coisa orgânica com o processamento dos jornais”, acrescentou.

O recente trabalho de Nuno Ramos foi inaugurado há pouco menos de um mês. Até 27 de junho, a visita do acervo completo do artista é gratuita, de quarta-feira a segunda-feira, das 9h às 21h, no Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte.

Mais Matérias