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NUDEZ COM LITERATURA

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Fotojornalista carioca leva pelo país projeto chamado Literanua

Crítico de teatro, pesquisador, performer e jornalista cultural, o carioca radicado em Brasília Diego Ponce de Leon também se aventura como fotógrafo. Depois de alguns anos clicando pela cidade de forma livre, Diego resolveu propor um projeto próprio, que levasse sua assinatura. Assim nasceu o Literanua, que traz a relação entre o nu artístico e a literatura.

A repercussão em torno da empreitada foi tamanha (com direito a matérias em jornais e sites nacionais, além de uma longa fila de espera de voluntários), que a III Bienal Brasil do Livro e Leitura resolveu transformar a série em uma exposição inédita, que integrou a lista de atrações do evento. Atualmente, Diego organiza uma temporada do projeto no Rio de Janeiro, depois de passagens por Aracaju e Recife.

“Uma das preocupações é naturalizar a nudez por meio da arte, do lírico, e aproveitar para lançar algumas provocações específicas sobre o tema: os livros podem ser mais íntimos do que o corpo? Podem dizer mais sobre você? Podem servir como máscara, como vestimenta?”, indaga Diego Ponce de Leon.

O desafio inicial foi convocar os voluntários para o projeto. “Foi minha primeira surpresa. Postei um convite aberto no Facebook e em duas horas tinha mais de 40 pessoas dispostas a participar. Hoje, são mais de 100 nomes na lista”, revela.

A segunda surpresa também foi em relação aos voluntários: “Estava esperando artistas e pessoas mais familiarizadas com essa temática do corpo, mas surgiram estudantes de exatas, um físico, publicitários, engenheiros, geeks, fisioterapeutas… além de atores, atrizes, bailarinos e profissionais do teatro”.

Muitos deles, inclusive, posaram nus pela primeira vez. “Impressionante como há gente interessada nessa desconstrução cultural, dispostos a quebrar paradigmas obsoletos e alcançar um senso maior de liberdade”, declara o fotógrafo e jornalista.

Algumas sessões renderam, além de boas fotos, momentos especiais. “Há quem experimente uma sensação de catarse na hora, uma ruptura. Uma das voluntárias, com dificuldades de autoestima, chorou emocionada ao se ver nua e se reconhecer bela. Um outro rapaz saiu correndo pela casa berrando ‘Estou pelado! Estou pelado!’. A mãe dele, que acompanhava a sessão, riu muito e adorou a iniciativa”.

Além de fazer uso de residências e lugares fechados, Diego investiu em locais conhecidos da capital brasileira, como o Jardim Botânico e a UnB, e contou com o apoio de estabelecimentos ligados ao universo literário: Sebinho, Ernesto Café, o sebo Achei! e a casa-produtora Medusa.

Ele ainda ousou ao agendar registros pelas ruas da cidade, a exemplo da Rodoviária do Plano Piloto, do Espaço Cultural Renato Russo e de paradas de ônibus da W3. “Foram as fotos mais difíceis. De forma a evitar transtornos ou ofender alguém, fizemos esses cliques na madrugada, sem qualquer movimento por perto”.

O resultado, que não traz qualquer nudez explícita apenas sugerida, pode ser conferido também no Facebook por meio da página Ponce de Leon Fotografia.

“Não imaginava que o projeto pudesse receber essa acolhida e apoio. Só agradeço. São muitos depoimentos de pessoas sensibilizadas pelas fotos, repensando o nu, refletindo sobre tabus que, muitas vezes, estão apenas na nossa cabeça. Esse retorno já justifica o esforço. A literatura é essencialmente poética. E muitos estão descobrindo que a nudez também pode ser”.

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