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Era de descontrole

Conteudo Isobar

Com atuação magnífica de Leonardo DiCaprio, O Lobo de Wall Street marca uma das obras-primas do diretor Martin Scorsese.

Gênio, revolucionário e polêmico são epítetos que caem como uma luva no diretor Martin Scorsese, um dos grandes responsáveis pela desburocratização do cinema em Hollywood nos anos 1970 junto com seus contemporâneos (e aqui falamos de Francis Ford Coppola, George Lucas, Steven Spielberg e Robert Altman).

Aquela foi uma das épocas mais prolíficas e excitantes do cinema justamente porque entrava em colisão direta com o establishment dos grandes estúdios; era a demolição de todas as barreiras restritivas e o florescimento pleno da era de diretores dos filmes que, independentes, comandavam o modus operandi dos filmes americanos.

Esse cenário foi gradativamente mudando até a chegada do século 21, onde blockbusters e exigências maçantes e surreais, além da interferência direta de executivos, comandam uma orquestra soporífera de filmes caríssimos e sem muito propósito de existência.

Agora e de repente, Martin Scorsese subverte todo esse tédio e mostra o porquê daquela geração ter sido tão fundamental para capitular o cinema como sétima arte. Isso porque O Lobo de Wall Street é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores filmes de 2013 e uma das grandes obras-primas desse diretor. A ponto de estar perto, muito perto (lado a lado, talvez), de Os Bons Companheiros, a masterpiece dele até então.

O Lobo de Wall Street (cuja estreia aconteceu na última sexta) narra a história real de Jordan Belfort, corretor canastrão boa pinta de Wall Street cuja lábia engana até o mais sábio dos homens, a ponto de burlar muitas leis e ganhar milhões de dólares regado na mais genuína esbórnia de sexo e drogas – tudo isso desmistificado por muito humor negro e lirismo quase surreal nas mãos mágicas e ágeis de Scorsese. Vale ressaltar, novamente: é uma história baseada em fatos reais cravados no coração dos anos 1980, uma década sem limites e desenfreada para os habitués da Bolsa de Valores americana.

Impecável em sua 5ª parceria com Scorsese, Leonardo DiCaprio veste a carapuça de Jordan Belfort na melhor atuação da sua carreira. Não é exagero: ele acaba de faturar o Globo de Ouro na categoria Melhor Ator, e é fortíssimo candidato a ganhar o Oscar no começo de março. Impossível não mencionar o esfuziante Jonah Hill no papel do braço direito de Belfort, Donnie Azoff – e que foi (merecidamente)  indicado a Melhor Ator Coadjuvante; além da ponta pequena, mas igualmente brilhante, do quase irreconhecível Matt McConaughey como o ideólogo das falcatruas do personagem principal.

O ritmo coeso e leve do filme, mesmo enveredando sem pudores pelos universos pesadíssimos de fraudes e hedonismo non-stop, não cabe apenas às interpretações e à direção de Scorsese, mas também à sua escudeira fiel Thelma Schoonmaker, montadora que o acompanha desde a época do curta-metragem de faculdade. É Terence Winter  (da série Boardwalk Empire) quem adapta a autobiografia de Belfort para as telas – indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado com muito mérito.

Scorsese também concorre como Melhor Diretor, é claro. Ganhando ou não, quem se importa? A prioridade autodeclarada do diretor sempre foi fazer filmes e, nessa equação, vence quem realmente coroa um profissional do cinema com os louros da glória: o espectador.

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