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Cinema do real

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Preparadora de filmes como “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite” lança livro e fala à Revista Estilo BB sobre seu método.

“Isso é só um filme. Eu não aguento mais!”, exclama o ator Lázaro Ramos durante a gravação das cenas do filme “Cidade Baixa” (2005), de Sérgio Machado, que mostra o cotidiano da área litorânea de Salvador, capital baiana. A queixa acima não causa espanto na preparadora de elenco Fátima Toledo. Pelo contrário: é justamente isso que ela espera ouvir dos que entram em contato com o seu método de interpretação.

Com mais de 30 anos de experiência no trabalho no qual foi pioneira no Brasil – com o filme “Pixote – A lei do mais fraco” (1981), de Hector Babenco [que a contratou para preparar 15 menores infratores e sem experiência em dramartugia], a profissional alagoana lançou, no dia 20 de janeiro deste ano, o livro “Interpretar a Vida, Viver o Cinema”, que detalha os mecanismos de seu método preparatório.

“Foi Hector que me descobriu”, diz ela à Revista Estilo BB por telefone. Antes de se entregar à profissão, Fátima atuava no teatro e trabalhava como monitora da artes cênicas na Febem. “Eu era infeliz com os mecanismos existentes com relação ao treinamento de atores”, atesta a profissional.

Ao longo dos anos, ela desenvolveu o método de interpretação Fátima Toledo, que lhe rendeu trabalhos com elencos de filmes imortalizados na história do cinema nacional, como as duas edições de “Tropa de Elite”, “Cidade de Deus”, “Besouro”, “Central do Brasil”, “Casa de Alice”, “Paraísos Artificiais”, entre muitos outros.

Em síntese, sua metodologia diz respeito à busca da verdade na cena por meio do universo sensorial dos atores, e não do personagem. “Não existe roteiro para os atores, não há construção de personagem, não peço que decorem falas. A única pessoa que deve ver o filme como um todo é o diretor. O papel do ator é se entregar ao presente”, reforça a preparadora. Para Fátima, dados os limites naturais da sétima arte, o cinema é a vida real, raciocínio evidente no título de seu recém-lançado livro.

No entanto, chegar ao âmago dos atores e fazer com que eles reajam em situações diversas, de forma verdadeira, não é tarefa simples. Esse é um ofício que exige tempo e é fundamentado nos estudos de bioenergética, Reich e meditação ativa. O preparo divide-se em etapas: inicialmente, ela conhece o ator por meio do universo do filme. Depois, trabalha para livrá-lo de seus obstáculos pessoais, para, por último, ativá-lo em cena. Em outras palavras, o que realmente acontece é a revelação do ator por meio de exercícios expressivos, para que este revele o personagem.

“O Leandro Firmino era um rapaz muito meigo, e havia uma distância muito grande para o Zé Pequeno [o antagonista de “Cidade de Deus”]. Foi difícil descobrir o lado obscuro dele e despertar o Zé Pequeno”, conta a preparadora. Um dia, o lado B do ator aflorou. “Ele chegou para gravar e usava um cabelo rastafári. Quando um garoto pegou no cabelo dele, ele não gostou e reagiu. Pronto! Havia descoberto: o negócio estava no cabelo. Então, fizemos alguns exercícios, coloquei alguém para mexer no cabelo dele e ele tinha de aguentar”, detalha Fátima.

Por mexer de maneira tão intensa com o lado humano dos atores, seu método é tachado por muitos como agressivo e invasivo. Ao que a preparadora esclarece: “Ele não é agressivo, é doloroso. Demanda força física, não é simples”. O que acontece, segundo ela, é que as pessoas associaram-no a filmes fortes, como “Tropa de Elite” e Cidade de Deus, mas não falam de “Casa de Alice”, mais póetico, que também se serve do método.

Em um vídeo na internet , o ator Wagner Moura, um de seus pupilos, discorre sobre o método e traduz, de maneira muito pessoal e clara, o trabalho da preparadora. “Foi muito impactante (no “Cidade Baixa”) conviver com a ideia de que não há personagem. De que é você colocado em determinada situação. Aparentemente, é fácil, pois é você, então, está tudo bem, você se conhece. E é muito louco como não sabemos direito quem somos. Pelo contrário, essa é uma descoberta dolorosa. Por outro lado, isso dá uma verdade tão grande às cenas; é uma coisa tão carne viva e despida de máscaras. E é bonito, porque costumamos associar o trabalho do ator à máscara. E o método da Fátima tira as máscaras, até ficar só você”.

Segundo Fátima, as mudanças provocadas pelo método são sentidas pelos atores além das telonas. “Ele muda a vida, muitos me falam isso. Na verdade, em um primeiro momento, você olha para si e vê vulnerabilidade, covardia e generosidade, por exemplo. Depois, você se reencontra e fica muito mais forte.”

Crédito da foto de capa: Divulgação / Caio Galucci

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