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Au revoir Simone

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Vanguardista, filósofa francesa Simone de Beauvoir irrompeu as barreiras convencionais e definiu o papel da mulher atual no mundo.  

A mulher deve seguir o seu destino, independentemente de qual seja ele. A frase é um referencial feminino da nossa época na civilização ocidental. Nem sempre foi assim, contudo. A ideóloga dessa mudança, e para a qual podemos atribuir essa sentença libertária que abre o texto, é a intelectual francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), em seu livro “O Segundo Sexo”, profundamente polêmico à época de seu lançamento.

Era 1949, e o aparecimento de ”O Segundo Sexo” no cenário intelectual foi um rastilho de pólvora para uma explosão bem maior (que, nas décadas seguintes, levaria o nome de movimento feminista). O jornal francês “Figaro” estampou em sua capa uma crítica, assinada por François Mauriac, dizendo que “literalmente, atingimos o limite do abjeto”.

Isso porque, na obra em questão, a filósofa francesa estabelecera que “nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assumiu no seio da sociedade. Ninguém nasce mulher; torna-se mulher”.

Uma obra sem precedentes, “O Segundo Sexo” estabelecera o processo de condicionamento cultural ao qual a mulher era submetida ao longo da sua vida. Para Beauvoir, biologia não é destino: você é assim porque é educada para ser assim desde pequena, com brincadeiras distintas, leituras diferenciadas e regras morais separadas entre homens e mulheres. Não existe jeito “certo” ou “errado” de viver a sua feminilidade. E as mulheres eram, sim, livres – libertadas, inclusive, da “obrigação” de se ter filhos. Maternidade, disse ela, é uma escolha.

Obviamente, a crítica social tão forte, fundamentalmente feminina e intensa caiu como napalm no colo da sociedade machista da época. “Saíram artigos muito desagradáveis, que diziam que eu me sentia humilhada como mulher e que por isso queria ridicularizar os homens. Pessoas me olhavam debochando e se cutucando nos restaurantes”, declarou ela, décadas mais tarde, em entrevista a um canal de televisão francês.

Era a entressafra entre primeira e segunda ondas feministas – no primeiro caso, em 1936, as mulheres conseguiram se desvencilhar da condição de serem submetidas como uma propriedade do marido, do casamento arranjado, além de terem conquistado o direito de votar no Estado democrático.

À época do lançamento, “O Segundo Sexo” fez sucesso entre as rodas da academia e da intelligentsia do mundo todo. Não era um livro popular, exatamente; enquanto era odiado pelos homens, era lido por mulheres de várias origens: operárias, secretárias, artistas de cinema. Era libertador, tão libertador que Simone receberia, ao longo da vida, um número incontável de correspondências, vozes anônimas e femininas que tiveram grandes epifanias e revelações ao ler a obra.

Seu sucesso absoluto, no entanto, foi coroado apenas em Maio de 68, data em que os movimentos feministas tomaram uma forma mais concreta, para florescer na segunda onda feminista, já em 1971, quando protestos de mulheres eclodiram na Europa e nos Estados Unidos, encampando a bandeira da pílula anticoncepcional e do aborto. Simone abraçou com entusiasmo o movimento feminista, que tomara forma como tal somente no fim do século. Ela, por sua vez, continuaria a desvendar todo e qualquer tipo de submissão da mulher ao mundo em que o masculino prepondera, sobretudo no casamento.

Seu relacionamento com o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre, que durou até a morte dele, é foco de muitas análises, biografias e contradições, já que supostamente se baseava em um conceito libertário e fundamentalmente intelectual. Mas isso é fio condutor para outra reportagem, afinal, Simone era, acima de tudo, humana – com todas as idiossincrasias naturais desta condição.

Simone morreu em 1986 e, à época, a filósofa Elisabeth Badinter declarara: “mulheres, vocês lhe devem tudo!” Certamente – e era um compromisso que milhares mundo afora fizeram questão de registrar em cartas. Caso de uma leitora operária que assim escreveu a Simone de Beauvoir: “hoje estou muito mais consciente da minha lucidez”. Ainda falta muito, mas boa parte das mulheres também está.

(Na foto que ilustra a matéria, Simone chega em Israel acompanhada de Sartre e recepcionada por comitiva governamental, em 1967 | Crédito: Government Press Office/Flickr)

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